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Entrevista a um italiano do século
XIX - LORENZO ROMANO AMEDEO CARLO AVOGADRO.
A teoria dos gases do Professor Avogadro é aceite e utilizada em todas
as partes do mundo. O seu nome está associado a uma das mais famosas
constantes físicas do nosso universo. Vamos saber um pouco mais sobre
este brilhante cientista!!!
SPIN: Bien
venuto, Amedeo (posso chamá-lo assim?)!!! Obrigado por ler o meu
Jornal! Vamos começar por saber como o Sr. prefere ser chamado (dado o
grande número de títulos que possui...): Conde, Doutor ou Professor Emérito?
Avogadro: Bon giorno! Por favor; pode chamar-me apenas
de Amedeo!!!
SPIN:
Amedeo,
o Sr. sempre sonhou, desde criança, em estabelecer uma brilhante
carreira como químico?
Avogadro: Não, não!!! Meu pai era um famoso advogado, senador,
e mais tarde um procurador geral. Ele esperava que eu seguisse os seus
passos. Na verdade; desde criança eu fui educado em casa - e os meus
professores foram, na sua grande maioria, particulares. Eu estudei e,
com apenas 16 anos, já era bacharel em direito! E quatro anos mais
tarde consegui o doutoramento - em leis eclesiásticas. Isto foi em
1796!!!
SPIN: Porque,
se desviou daquela que parecia ser uma carreira promissora?
Avogadro: Bem... eu até gostava de direito, e acreditei ser
essa a minha vocação por muito tempo. Foi quando eu comecei a estudar
filosofia natural - o que hoje chamariam de ciência, que os meus
interesses começaram a mudar. Em 1800 eu estudei muito matemática e física.
Talvez este conjunto de novas informações é que me levaram para a química.
Na mesma época, um conterrâneo meu - Alessandro Volta - fez
interessantes descobertas, que muito me impressionaram. Juntamente com
meu irmão - Felice - comecei a estudar electricidade, em 1803. A
satisfação dos nossos primeiros resultados foi tanta, que me
convenceram por completo que a ciência deveria ser a minha ocupação
principal.
SPIN:
Amedeo,
porquê tanta satisfação?
Avogadro: As nossas modestas descobertas foram o suficiente
para que acabássemos nomeados para a Royal Academy of Sciences, de
Turin, no ano seguinte! Isto foi muita honra para nós!
SPIN: E, então,
o Sr. começou a ganhar o seu sustento como cientista?
Avogadro: Eu ainda estava envolvido, como advogado, em vários
órgãos públicos; mas a pesquisa e o ensino das ciências começaram a
tomar, cada vez mais, parte do meu tempo.
SPIN: E como
chegou, o Sr. à sua brilhante hipótese?
Avogadro: Um contemporâneo meu, Gay-Lussac, publicou
um artigo em 1809 que mostrava que todos os gases se expandiam com o
aumento da temperatura. O que me chamou a atenção foi que todos se
expandiam na mesma proporção, independente do tipo de gás estudado.
Para a minha mente estava óbvio que, então, todos os gases, a uma
certa temperatura e pressão, deveriam conter o mesmo numero de partículas
por unidade de volume. Isto é realmente muito simples não é?...
SPIN: Pois é...
mas sabemos que o Sr. não recebeu qualquer louvor por esta descoberta,
no seu tempo. Levou mais de 50 anos para a comunidade científica
perceber o valor de sua hipótese! Porquê? Os seus resultados não
foram publicados na época?
Avogadro: Em 1811 eu publiquei um trabalho com as minhas
novas ideias... posso ler parte delas para si:
"M. Gay-Lussac has shown in an interesting memoir... that gases
always unite in a very simple proportion by volume, and that when the
result of the union is a gas, its volume is very simply related to those
of its components. But the quantitative proportions of substances in
compounds seem only to depend on the relative number of composite
molecules which result. It must be then admitted that very simple
relations also exist between the volumes ofgaseous substances and the
numbers of simple or compound molecules which form them. The first
hypothesis to present itself in this connection, and apparently even the
only admissible one, is the supposition that the number of integral
molecules in any gas is always the same for equal volumes, or always
proportional to the volumes."
Eu fui um dos poucos a aceitar, publicamente, as ideias de Gay-Lussac.
Tanto o meu trabalho quanto o dele foram rejeitados por Dalton e
Berzelius!!!
SPIN: Mas a
parte mais intrigante da sua teoria é a que vem a seguir... pode-nos
explicar?
Avogadro: Si, si!!! Eu percebi que os experimentos de
Gay-Lussac também mostravam que as "partículas" não tinham,
necessariamente, que ser formadas por átomos individuais: mas também
por combinações de átomos! Por exemplo: as partículas do gás hidrogénio
poderiam ser formadas por dois átomos de hidrogénio, e as da água por
dois átomos de hidrogénio e um de oxigénio. Vou ler, novamente,
minhas anotações da época:
"We suppose... that the constituent molecules of any simple gas
whatever...are not formed of a solitary elementary molecule (atom), but
are made up of a certain number of these molecules united by attraction
to form a single one."
Esta foi a parte que nem Dalton ou Berzelius aceitaram. Se isto fosse
verdade, muitos dos pesos atómicos dados por Dalton estariam errados;
ele não queria admitir isto! De acordo com a minha hipótese, a massa
do hidrogénio era 1/16 da massa do oxigénio, e não 1/8, como ele
havia publicado.
SPIN: Amedeo ouvidas as suas anotações,
percebe-se que algo está confuso quanto à aplicação dos termos
"molécula" e "átomo"...
Avogadro:
No artigo original, publicado em 1811, eu
evitei o uso da palavra "átomo". Pensando bem, agora, sei que
cometi alguns erros... mas as coisas eram muito diferentes na época, o
Sr. sabe?! Nem sequer sabíamos o que de facto era um átomo!! Em comum,
sabíamos apenas que a matéria era formada por partículas.
SPIN: Quais foram, na época, as principais
contribuições da sua teoria?
Avogadro:
Acredito que a derivação dos pesos
relativos de átomos ou moléculas individuais. Se o número de partículas
em iguais volumes de gases é o mesmo, uma rápida relação pode ser
estabelecida: a razão entre os pesos de duas amostras do mesmo volume
de dois gases é igual à razão entre as massas das partículas destes
gases. Por exemplo:
(massa de 1 L de oxigénio / massa de 1 L de hidrogénio) = (1,429g /
0,0899g) = 15,9g
Isto é, as partículas do gás oxigénio são 16 vezes mais pesadas do
que as partículas do gás hidrogénio!
SPIN: E então, após a sua famosa hipótese, o
seu trabalho acabou?
Avogadro:
Não, é claro! Eu continuei meus estudos em
química e física até ao final da minha vida!
SPIN: Hummm... por falar nisso... quando foi
que você morreu?
Avogadro:
Foi no dia 9 de Julho de 1856, em Turin. A
mesma cidade onde nasci, oitenta anos antes...
SPIN: E então, após a sua morte, a sua hipótese
foi finalmente aceite! Como foi isso?
Avogadro:
O meu conterrâneo Cannizzaro
apresentou um artigo no Karlsruhe Congress em 1860. Nesse artigo, ele
introduzia um novo sistema atómico, inteiramente baseado no meu
trabalho. Ele foi facilmente aceite e eu... bem, me tornei-me famoso!
SPIN: Claro... e Amadeo Avogadro tornou-se um
elo entre a hipótese atómica de Dalton e a teoria atómica de
Cannizzaro. Muito obrigado pela sua participação! Os nossos leitores
estão, também, gratos pela sua presença!
Avogadro:
Arrevederci!
_____________________
*Esta entrevista fictícia é inteiramente
baseada em fontes biográficas.
Para saber mais, consulte:
>Isaac Assimov, Assimov's Biographical Encyclopedia of Science and
Technology, Doubleday, 1964.
>Eduard Forber, Ed., Great Chemists, Interscience Publications, 1961.
>Charles Coulston Gillispie, Ed., Dictionary of Scientific Biography,
Vol. I, Charles Scribners' Sons, N.Y., 1970.
>Mario Morselli, Amedeo Avogadro, A Scientific Biography, Kluwer
Academic Publishers, USA, 1984.
>"Review," a review of the book Avogadro and Dalton: The
Standing in Chemistry of Their Hypotheses, by Dr. Andrew Meldrum, Nature,
No. 1926, Vol. 74, Sept. 27, 1906, pp.537-8.
>Edgar C. Smith, "Amedeo Avogadro," Nature, No 2196, Vol.
88, Nov. 30, 1911, pp. 142-3.
>Sir William A. Tilden, Famous Chemists: The Men and Their Work,
1921, 1968.
>Trevor I. Williams, Ed., A Biographical Dictionary of Scientists,
Halsted Press/John Wiley & Sons, 1974.
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